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Oscilação cambial – qual é o momento ideal para internacionalizar?

Economias globalizadas, novos mercados com potencial de consumo, inovação tecnológica ou ainda simplesmente mitigação de riscos. Os motivos são amplos e diversos para buscar a internacionalização. Cada vez mais, empresas brasileiras têm procurado ampliar a sua atuação no mercado buscando novos territórios para expandir, em especial nos Estados Unidos.

Paralelamente, estamos passando por uma crise econômica mundial provocada pela pandemia da Covid-19. Com toda a incerteza econômica e a cotação do dólar crescendo, muitos projetos foram colocados em modo stand-by. Porém, o que não ficou, e não ficará à espera de um câmbio mais favorável, é o mercado mundial.

Boa parte das empresas brasileiras com planos de internacionalização está à espera de “um momento melhor” para agir e retomar seus projetos de expansão para o mercado americano. Mas, talvez esperar pode não ser a melhor decisão.

Ao longo deste texto vamos entender porque a oscilação cambial não deve ser o único parâmetro para definir o momento de fazer novos investimentos no exterior.

Faz sentido empreender e investir nos EUA mesmo em meio à crise e à “alta” do dólar?

A pandemia do novo coronavírus está modificando de forma profunda o cenário mundial. Além disso, já é possível observar alterações no comportamento dos consumidores. Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que 83% das empresas precisarão de mais inovação no pós-pandemia.

A queda contínua da taxa básica de juros (Selic), a níveis nunca vistos no Brasil, também tem mudado o estilo de investimento do brasileiro. Isso porque investimentos em renda fixa, que sempre foram a opção mais simples e segura, deixaram de oferecer retornos altos e fáceis. Mesmo com o real valendo bem menos em relação ao dólar, de acordo com o Banco Central, só nos cinco primeiros meses deste ano US$ 3,5 bilhões em recursos de investidores brasileiros foram para fundos de investimento no exterior, quase cinco vezes mais que o mesmo período de 2019, quando a taxa de câmbio era mais atrativa.

Essa transferência de capital fica mais fácil de entender quando usamos como exemplo um investidor que há 10 anos teria investido no índice da bolsa brasileira em USD (EWZ), e visto seu investimento ter uma desvalorização de aproximadamente 50%. Caso esse mesmo investidor tivesse investido no índice S&P 500 (que acompanha as 500 maiores empresas dos EUA), teria tido uma valorização de 230%. Mercados mais maduros e competitivos tendem a apresentar melhores resultados a longo prazo.

Muitas empresas que estavam acostumadas a investir suas reservas em renda fixa estão tendo de revisar seus portfólios, e inclusive indo buscar alternativas no exterior, mesmo em tempos de pandemia. Mas se isso faz sentido do ponto de vista financeiro, porque não também em relação à atividade-fim da empresa?

Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral (FDC) até o ano de 2018, 71,9% das companhias brasileiras aumentaram os investimentos no mercado externo para diminuir a dependência da economia interna. Investir em operações no exterior faz parte da estratégia para manter a competitividade e estabilidade financeira, mesmo com o dólar valorizado frente ao real.

Claro que um processo de internacionalização, ou de qualquer formato de expansão, não acontece da noite para o dia. São decisões e passos que requerem planejamento, análises de mercado e execução cuidadosa. Porém, há caminhos para que esse processo se dê de forma segura e gradativa, fazendo com que o valor de investimento não seja tão grande e nem apenas em um momento só, mitigando riscos e assegurando a viabilidade a cada passo.

É preciso olhar para a frente com atenção e cautela, mas realismo. Quando falamos sobre internacionalização, se a empresa já estiver operando em dólares, ou em qualquer outra moeda mais forte que o real, isso lhe proporcionará um tempo valioso para tomada de decisões com menor urgência. O que não deveria acontecer é a paralisação completa o processo para esperar uma cotação mais favorável.

Apesar da pandemia do Covid-19 fazer com que, de certa forma, toda a economia mundial tenha sofrido uma grande retração, os Estados Unidos têm mostrado fortes sinais de retomada. A taxa de desempregados recuou para 10,2% em julho de 2020, que chegou a atingir o pico em abril com 14,7%, conforme divulgado por Economia G1.

Segundo ainda o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, as melhorias no mercado de trabalho refletem a contínua retomada da atividade econômica que havia sido reduzida devido à pandemia do coronavírus e aos esforços para conter estas quedas. No mês passado, houve “ganhos notáveis” no emprego em lazer e hospitalidade, governo, varejo, serviços profissionais e de negócios, outros serviços e atenção à saúde.

O mercado americano está cada vez mais sólido e repleto de oportunidades, iguais aos patamares pré-pandemia. A robustez da economia americana permite que a recuperação dos mercados nos EUA esteja sempre vários passos à frente do Brasil.

E, retomando para a questão central deste texto, o processo de internacionalização não deve ser interrompido ou adiado em função da taxa de câmbio momentânea, visto que essa oscilação sempre irá acontecer.

Aliás, o câmbio é uma das variáveis mais importantes na equação de definição da internacionalização do negócio (antes, durante e depois do processo realizado). Logo, se considerarmos que em um cenário futuro o câmbio “desfavorável” em relação ao Real pode ter um efeito menos impactante, neutro ou até benéfico para o negócio já internacionalizado, então o que se tem de fazer é chegar a esse cenário o quanto antes.

Dessa forma, a resposta à pergunta inicial deveria ser sim, pode fazer sentido e até ser estratégico empreender e investir nos Estados Unidos mesmo em meio à crise e à “alta” do dólar, desde que se faça o devido estudo do mercado e planejamento de longo prazo do negócio.